segunda-feira, 11 de julho de 2011

Maquiagem Borrada


- Maldita maquiagem que se diz à prova d'água, estou chorando lágrimas pretas!


Dizia Juliene olhando-se no espelho em meio de outra crise. Já era a segunda apenas essa semana e, pelas contas dela, não era a sua TPM chegando. Porquê raios ela estava tendo essas crises? Seria a falta de vinho no seu organismo?


- Droga, droga droga, agora vou ter que limpar tudo para parecer que não chorei e ficar linda e maravilhosa para caso alguém me veja...


Salém a olhava do sofá. Os grandes olhos amarelos já haviam visto essa cena tantas vezes que nem se espantava mais. Mas pareci que dessa vez era mais sério, enquanto limpava a maquiagem borrada pelas lágrimas, Juliene caiu de joelhos no banheiro chorando compulsivamente. Em um pulo, ele foi correndo para o colo da dona.


- Salém, o que eu fiz dessa vez? Me diz... Eu pensei... - tentou dizer ao gato antes de voltar a chorar.


O gato aninhava-se no seu colo, lhe fazendo carinho, ele, mais do que ninguém, sabia como a sua dona ficava frágil nessas crises. Mas que crises são essas? O que as causava?


Assim que ela se acalmou, sentou-se no chão apoiando as costas no sofá e com um copo de whiskey na mão. Ao som de Bob Dylan, Salém estava no seu ombro, com a cabeça encostada na sua, como se pudesse transmitir os pensamentos de um para o outro.


- Sabe, hoje eu li coisas que me desagradaram um pouco. Senti um pouco de inveja misturado com ciúmes. Tá Salém, foi ciúmes, eu admito, agora não me olhe assim! - dizia ela colocando a mão nos olhos do gato que a tirava com a pata.


Tomou um gole, estava com gelo de água de coco para poupar-lhe tempo. Descia quente, aquecendo aquele coração. Salém foi para seu colo, ficou de um modo que poderia ver o rosto da dona e sempre checar se ele voltaria a ter lágrimas pretas.


- É... Mais uma vez eu senti ciúmes. Mais uma vez o coração não soube como responder. Queria que todos fossem como você, não me fazem ciúmes, só as vezes quando prefere a visita do que a mim. - gargalhava, mas isso não era efeito da bebida, ela já estava tão forte que nem notava mais o álcool.


Salém a esquentava, a janela estava aberta e ventava muito...


- Mais tudo bem Salém, tudo bem. A pessoa gosta de mim, isso eu sei. Só é uma questão de esperar.


Disse ela tomando o último gole do copo, colocou mais e ficou lá sentada no chão, recuperada, ouvindo Dylan e com seu gato lhe aquecendo. Amanhã seria um novo dia na redação e ela deveria está bem, inteira e sem ressaca.

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